Em tempos de pandemia e crise no setor cultural, Santos Film Fest é evento de resistência que se reinventa e leva o Cinema a todos os cantos do Brasil

Pandemia, isolamento social, cortes no setor cultural. Esses e tantos outros obstáculos que vem acontecendo esse ano poderiam impedir, entre outras coisas, as manifestações artísticas e culturais, mas o Santos Film Fest (que chega em 2020 a sua 5ª edição) mostrou-se mais do que um festival cultural ou cinematográfico: um evento de resistência.

Desde os seus homenageados nessa edição (o diretor Sérgio Rezende, o ator, diretor e produtor, Paulo Betti, a atriz, diretora e roteirista Julia Katharine) aos filmes escolhidos – quase 70 – para serem exibidos ao longo dos 8 dias de festival, o Santos Film Fest (SFF) mostrou que está atento a tudo que acontece no cenário político, social, etc. Prova disso são as temáticas tanto de longas quanto de curtas-metragens de ficção e documentário que passaram nessa edição.

Devido a pandemia, o festival foi todo online e os filmes foram exibidos na plataforma de streaming, Videocamp.

A abertura do evento, por conta disso, aconteceu através de uma superlive com os padrinhos do festival, os atores Luciano Quirino e Ondina Clais e os homenageados Sérgio Rezende, Paulo Betti e Julia Katharine (já citados acima), mediados pelo diretor e organizador do festival, André Azenha.

“Eu acho que o cinema deveria estar no Ministério da Saúde. Contar histórias é uma questão de saúde. As pessoas não vivem sem ouvir histórias”, relata o diretor Sérgio Rezende e ainda fala o que o move a fazer Cinema: “Desde que comecei a fazer cinema, não é uma questão de resistir, mas de afirmar. Eu quero, eu posso, eu faço”, finaliza.

O desmantelamento no setor cultural e as formas de resistir a isso também foram alguns dos assuntos debatidos na live de abertura: “Estamos passando por um desmanche na cultura. Teremos um período de reconstrução”, analisa a atriz e cineasta Julia Katharine. “Recuperar a cinemateca. Produzir de forma mais democrática”, relata Julia, são algumas das formas de contribuir para a resistência do cinema brasileiro.

Paulo Betti relembrou com carinho o teatro e o cinema santistas. “Santos para mim tem uma importância absoluta. Quando comecei a fazer teatro, eu tinha como referência o cinema santista, o teatro de Carlos Alberto Soffredini […]”. E finaliza: “É uma alegria imensa estar sendo homenageado com o Sérgio Rezende, que me deu os melhores papéis que fiz no cinema […]. Para mim, essa homenagem é um alento, como Júlia Katharine falou, me sinto aquecido, estimulado a continuar trabalhando e lutando pelo cinema”.

Depois dessa superlive de abertura, o Santos Film Fest, ao longo dos outros 7 dias, teve diversas atividades artísticas, culturais e normativas, como: bate-papos, workshops, oficinas, exibição de filmes e shows. Tudo gratuito, online e o espectador pôde acompanhar no conforto de sua casa.

Temas super atuais como as fake News e o atual governo federal foram abordados no documentário “Nossa Bandeira Jamais será Vermelha”, o grande vencedor dessa edição do SFF, levando os prêmios do júri de melhor longa-metragem e melhor diretor (para Pablo Lopes Guelli). Pablo explicou o que o motivou a fazer o filme e como usou sua experiência como jornalista para realizá-lo: “… (o filme) começou, na verdade, em 2008…. No começo ele era um projeto, uma ideia… Essa ideia foi sendo desenvolvida… A partir de 2013, quando começaram as manifestações eu percebi que era hora de transformar aquele projeto em algo solido. Dá até para dizer que o filme começou mesmo, na prática, em 2013… O filme vai abordar a concentração de mídia no Brasil. Porque em 2013… houve as manifestações de rua no País e eu, como jornalista e tendo morado muito tempo fora, comecei a observar o comportamento da imprensa brasileira e a forma como ela cobria aqueles eventos”.

“Selvagem” (que levou o prêmio de Menção Honrosa – Filme de Caráter Humanitário) também lida com um tema de resistência: as ocupações nas escolas paulistanas no final de 2015. O diretor Diego da Costa (que exibiu no festival, também, o longa “Os Caubóis do Apocalipse” e o premiado documentário musical “A Plebe é Rude”, Melhor Filme de Rock pelo voto popular do Blog n Roll, que Diego fez junto com Hiro Ishikawa) falou sobre as dificuldades de rodar “Selvagem”: “… o maior desafio de todos foi trabalhar no tempo que a gente tinha, que é 10 vezes menos do que um longa-metragem tem”. A atriz do filme, Erica Ribeiro falou sobre a relevância dos temas abordados no longa: “(‘Selvagem’) é uma história que, principalmente nos tempos atuais, a gente precisa falar muito, que a gente está sempre resistindo. A gente está sempre lutando pelos nossos ideais e não só por isso, pelos nossos direitos, principalmente direitos básicos que é a educação. Sem a educação a gente não vai pra frente, a gente não progride. Você quer dar liberdade e você quer potencializar pessoas, dê conhecimento. Sem conhecimento, a gente não consegue avançar”.

A cantora Alcione, a Marrom foi homenageada com um documentário sobre sua vida e sua carreira pela premiada cineasta Angela Zoé (que teve quatro de seus trabalhos exibidos numa retrospectiva dedicadas à sua obra no festival esse ano) que contou o que a motivou a fazer o documentário “O Samba é Primo do Jazz” (prêmio de Melhor Longa-Metragem pelo Voto Popular), após dirigir um especial na TV sobre a cantora: “Eu tive uma curiosidade interna de onde vinha aquela voz, de onde vinha aquelas nuances, aqueles matizes… Vocês vão ver no documentário é exatamente trajetória dela. Da onde vem as influências musicais, da onde vem todo esse ensino e essa capacitação que ela tem de ser uma musicista completa. Ela lê música, ela entende música, ela ouve quando uma coisa está fora do tom e ela corrige”.

Em meio a tantos obstáculos como, por exemplo, o fato de não ser possível fazer um evento presencial (como nos anos anteriores), o Santos Film Fest provou persistir e resistir, não só ao atual cenário social e político, mas em promover a cultura, o conhecimento e dar voz a pessoas que precisam ser ouvidas, assuntos que precisam ser falados, questionados e discutidos. E, mais do que nunca, mostrando que o Cinema e a cultura devem ser levados a qualquer canto do mundo, para todos. E isso, o 5º Santos Film Fest fez brilhantemente. E viva o Cinema!

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